Moscou (2° dia): museus, parques e o fabuloso metrô da capital russa

1) Kremlin

Já descansado da longa caminhada do primeiro dia, sugiro começar o segundo dia com a visita ao Kremlin, a fortaleza do fim do século XV, hoje sede do governo russo.

Muitas partes do Kremlin não são abertas à visitação, obviamente, mas vale a pena passar um tempo lá dentro. Ao menos que você tenha muito interesse em armas e arsenal militar, acredito que 90 minutos sejam suficientes para ver com calma.

O site (em inglês) http://kreml.ru/en/info/visitors/tickets/ explica todos os tipos de ticket. Lembrando que funciona de 10h às 17h e fecha às quintas.

Kremlin

2)  Museus

Sugerir museus em Moscou é sem dúvida uma das tarefas mais difíceis. Há centenas de museus e galerias muito legais, colocando Moscou em uma posição privilegiada quando o assunto é oferta cultural. Como eu sei que o tempo é limitado, vou sugerir dois dos mais conhecidos:

– Museu Pushkin (ulitsa Volkhonka, 12 – metrô Kropotinskaya): pra quem sai do Kremlin, é só seguir a rua que leva à Catedral Cristo Salvador (aquela da Pussy Riot). É o maior museu de arte europeia de Moscou, com obras de Van Gogh, Cézanne, Renoir, Degas, Rembrandt, Toulouse-Lautrec, Botticelli, Picasso, Gauguin, Matisse… O museu está aberto todos os dias (menos segunda), de 10 a 19h. Entrada: 400 rublos (200 r para estudantes)

Pushkin

– Galeria Tretyakov (pereulok Lavrushinsky, 10 – metrô Tretyakovskaya): é simplesmente a maior coleção de arte russa do planeta. Kandinsky, Malevich, Chagall e Rublev são alguns dos nomes que você vai encontrar pelos corredores do museu. Visitas nas quintas e sextas de 10 a 21h e nos outros dias de 10 a 18h. O museu fecha às segundas. Entrada: 450 rublos (300 r para estudantes)

Trety

3) Parques

– O parque mais famoso da cidade é o Gorki, inaugurado em 1928 e situado bem ao lado do rio Moscou. Se você escolheu ver o museu Pushkin, vá andando do Pushkin até o rio (cruze aquela ponte em frente à Catedral Pussy Riot) e siga pela outra margem, andando para a direita. São 2,3 km até a entrada do parque.

Se você estiver na Tretyakov, mais perto ainda. Você só precisará caminhar 1,5km. O mais simples é perguntar a direção a alguém na rua.

Caso esteja perdido, mas queira continuar caminhando, diga “Park Gorki” e “peshkom” (a pé) e os russos te indicarão ao menos a direção. (os russos não falam ‘Park Gorki’, mas como postar aqui a maneira gramaticamente correta exigiria alguma explicação de russo, deixemos a maneira simples. Eles vão entender).

No inverno, a pista de patinação no gelo deles é sensacional. E é possível alugar patins no local.

O metrô que serve o Parque Gorki é o Oktyabrskaya.

Gorki

– Outro parque importante de Moscou é o ВДНХ ou VDNH (pronuncia-se “vê-dên-rá”), que ocupa uma área maior que o do principado de Mônaco. O museu da Cosmonáutica fica no parque. Metrô: VDNH. na linha laranja ao norte da cidade.

VDNH

– Patriarshiye Prudy (Lagoas do Patriarca): essa é a dica para quem gosta de locais com referência literária. E também para quem quer fugir das grandes hordas de locais e turistas. A lagoa é um dos principais cenários do livro O Mestre e a Margarita, de Mikhail Bulgakov. O autor também morou na área. Há vários cafés pequenos e charmosos no bairro.

Patriarch's Pond 2

Para chegar, quase todos os guias recomendam a estação de metrô Tverskaya. Eu vou ser “do contra” e sugerir Barrikadnaya. Dependendo de como você tiver organizado os seus dias (e do seu interesse), há outras coisas legais pra ver pela região. Saindo do metrô, você pode visitar o zoológico (1), ver um dos sete edifícios stalinistas da capital russa (2), visitar o Planetário (3) ou simplesmente ir direto aos Patriarshiye Prudy.

barrikadnaya

4) Metrô, o palácio subterrâneo

O metrô de Moscou, em funcionamento desde 1935, transporta diariamente quase 7 milhões de pessoas, fazendo dele o terceiro mais movimentado do mundo, depois de Tóquio e Seul. São 188 estações, cobrindo mais de 300 km. E o sistema de transporte subterrâneo da capital russa segue em plena expansão. Estima-se que até 2020 haja pelo menos 450 km de trilhos subterrâneos, o que colocaria Moscou com a terceira maior malha do mundo, depois de Beijing e Xangai.

Além destes números superlativos, o metrô moscovita é conhecido mundialmente pela beleza de suas estações. Como é impossível ver até mesmo 10% das estações, sugiro que o mochileiro se concentre na linha circular. Suba e desça em cada uma das estações e aprecie os detalhes que fazem do metrô dignos do apelido de “palácio subterrâneo”. A minha estação preferida é a Komsomolskaya (fotos abaixo). Além das 12 estações da circular, vale muito a pena checar a Mayakosvaya (linha verde), considerada por muitas pessoas a mais bonita, e também a Ploschad Revolutsii (linha azul-escuro), onde os supersticiosos estudantes russos fazem romaria na época de exames para tocar o focinho da estátua de um cachorro, que segundo eles traz sorte.

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Moscou (1° dia): um roteiro a pé pela capital russa

Quem viaja muito ou mora em cidades turísticas deve ouvir com frequência perguntas do tipo: “O que é imperdível em tal lugar?”, “Como faço pra visitar todos os pontos importantes da cidade em dois dias?”. Ou ainda: “Você pode fazer uma lista dos lugares não-turísticos que eu tenho que ver?” e “Quanto tempo você acha que eu devo ficar em ….?

Bem, como sei que vão continuar me fazendo as mesmas perguntas, resolvi aproveitar a viagem Transiberiana para dar dicas da primeira cidade do trajeto – Moscou!!!

Muito gente chega à capital russa achando que vai encontrar a União Soviética aqui, mas acaba se deparando com uma cidade enorme (15 milhões de habitantes) e com uma aparentemente imparável vocação para o consumo. Para os mochileiros da Transiberiana, pode assustar. Além disso, Moscou sempre aparece nos noticiários como uma das cidades mais caras do mundo. Será que isso é verdade? Tem como aproveitar a capital russa gastando pouco? Claro que sim. Estas listas levam em conta a vida dos expats e os preços (astronômicos) dos aluguéis na cidade. Não é o seu caso. Desfrute.

O primeiro post de Moscou vai cobrir os pontos básicos do centro da cidade a pé. Do ponto 1 até o ponto 10 são apenas 5km. Coloque tênis confortáveis e comecemos a caminhada.

Mapa centro Moscou 2 (editando)

1) Teatro Bolshoi

Acorde cedo (se o jet lag permitir) e pegue um metrô para a estação Teatralnaya. Tente chegar antes das 10 da manhã. A primeira coisa que você vai ver é o famoso teatro Bolshoi, onde o Lago dos Cisnes teve a sua première em 1877 (a apresentação foi um fiasco, por sinal). O Teatro Bolshoi é o mais importante palco de balé do mundo, mas tem se envolvido em histórias no mínimo curiosas. Depois de seis anos fechado para uma reforma que foi um “pouco” mais cara que o planejado, o teatro voltou às manchetes no início deste ano, quando o diretor artístico Sergey Filin foi atacado nas ruas de Moscou com ácido. Conversei em Moscou com uma das ex-bailarinas do Bolshoi e ela rasgou o verbo (“O Teatro Bolshoi está virando um grande prostíbulo”, diz bailarina http://osbrics.com/2013/04/05/o-teatro-bolshoi-esta-virando-um-grande-prostibulo/

Para comprar ingressos, é importante que você se organize com muita antecedência porque esgotam rapidamente. As vendas abrem três meses antes e basta se registrar no site do Bolshoi. Para o bem de todos e a felicidade geral da nação, o site também está em inglês: http://www.bolshoi.ru/en/

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2) Praça Vermelha

Do Bolshoi, siga o mapinha e ande para a Praça Vermelha, que fica logo ao lado. Sei que todo mundo vai querer tirar mil fotos – pulando, deitado, de costas, de ladinho, papai-mamãe (ops, isso não é um conto erótico) –, mas sugiro ir direto para o Mausoléu do Lênin, que fica aberto apenas entre 10h e 13h (fechado segunda e sexta). É de graça pra entrar, mas você vai ter que deixar a câmera perto da entrada (e custa uns rublozinhos). Não pode parar, olhar, dar tchau pro camarada nem fazer movimentos bruscos dentro do mausoléu. Parece bobagem, mas é bom avisar. Um amigo meu levou uma bronca “só” porque estava com a mão no bolso. Resumo: todo respeito é pouco. A visita vai durar dois minutos (se você tiver sorte e tiver uma fila lenta).

Terminada a visita ao mausoléu, volte para aproveitar todos os ângulos da Praça Vermelha, aquela que tantas vezes vimos nos livros de história.

Na parte norte da Praça, vê-se o Museu de História (o edifício vermelho). Acho muito legal, mas não pro primeiro dia. Tire fotos, dê uma voltinha, mas siga o passeio pra pequena igreja que você vê logo ao lado do museu. É a Catedral de Kazan, uma réplica construída em 1993, já que a original (de 1636) foi destruída. Dizem que derrubaram a igreja do século XVII porque ela impedia a passagens dos trabalhadores para a celebração do dia 1° de Maio.

Siga para o shopping GUM (ГУМ, em russo), que foi transformada de armazém soviético em um templo de lojas chiques e caras. Como você é turista, entre sem receio. Posso ir de Havaianas? Claro que sim. Um cafezinho não vai custar mais de cinco reais no segundo andar. Sente-se e relaxe porque o principal está por vir.

Os mais de 10 mil km e muitos mil reais que você gastou para estar aqui vão ser recompensados agora – Igreja de São Basílio (aquela que todo mundo diz que parece um sorvete). Moro em Moscou há quase quatro anos e sempre que vejo estas cúpulas coloridas, eu me emociono. A visita é imperdível. A São Basílio foi construída entre 1555 e 1561, para celebrar a conquista de Kazan por Ivã, o Terrível. A entrada custa 100 rublos (R$6,60 – metade para estudantes) e funciona de quarta a segunda, 11h-17h.

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3) Ponte Moskvoretsky – cruzando o rio

Seguindo pela parte de trás da São Basílio, você vai ver a ponte Moskvoretsky. Cruze esta ponte e aproveite para tirar fotos muito legais do Kremlin (o complexo amuralhado, com torres, que você consegue ter um panorama agora). Acho que é um dos melhores ângulos da cidade. Desça pela escadinha pra cair direto na calçada às margens do rio Moscou.

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4) Ponte Bolshoy Kamenny

Desta ponte você tem uma outra vista muito bonita do Kremlin. É logo a primeira quando você vem caminhando da ponte anterior. Suba para tirar algumas fotos, mas volte para seguir margeando o rio.

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5) Ponte  Patriarshy

Desta ponte, você vai chegar direto à Catedral Cristo Salvador, mais conhecida agora como Catedral Pussy Riot. Sim, foi aqui onde as meninas do grupo punk encenaram ilegalmente uma crítica ao Putin no altar, em março de 2012, e foram condenadas a dois anos de cadeia. Críticas ao autoritarismo russo vieram de todas as partes. Como se o Kremlin se preocupasse muito com críticas… A catedral foi construída há pouco mais de 15 anos, em 1997, para a celebração do 850° aniversário da cidade de Moscou. Mas a obra teve algumas polêmicas. 1) estima-se que o gasto para a construção do templo tenha chegado a 10 bilhões de rublos (700 milhões de reais). E tudo foi feito em apenas dois anos, em uma época de crise no país – crise esta que teve seu ápice em 98; 2) o arquiteto responsável por parte da obra, Zurab Tsereteli, é um velho conhecido dos moscovitas por sua megalomania e um gosto duvidoso (já falaremos dele). 3) antes da catedral, havia no local a maior piscina do mundo.

Só lembrando que esta catedral é até hoje alvo de críticas porque funciona quase como um centro comercial. Amém. (Corrupção Ortodoxa – em inglês http://www.aljazeera.com/programmes/peopleandpower/2013/02/2013267215745877.html)

Dando mais uma voltinha perto da ponte, você vai ver não muito longe a estranha estátua de um cara num barco. Este é Pedro, o Grande, feito pelo já mencionado Tsereteli. O arquiteto era o queridinho do anterior prefeito, Iuri Lujkov, que ficou vinte anos no poder. A estátua de Pedro tem 94,5m de altura e é odiada por 11 de cada 10 moscovitas. A primeira pergunta é “Por que homenagear Pedro em Moscou se foi ele que transferiu a capital para São Petersburgo, a rival do norte?”. Diz a lenda que Tsereteli havia dado de presente para os Estados Unidos uma estátua de Cristóvão Colombo, mas cinco cidades americanas recusaram o mimo. E as más-línguas falam que o tal Colombo foi modificado, virou Pedro, o Grande, e acabou ficando na Rússia. É feio, convenhamos.

Pedro

6) Casa Pashkov

Quando você sair da igreja, atenção para pegar a rua correta. Você tem que procurar a saída que dá para a rua Volkhonka ou então perguntar pelo Museu Pushkin (Volkhonka, 14). Você não vai visitar o museu (hoje), mas esta é a direção que você tem que tomar. Ande pela calçada da esquerda, passando bem em frente ao museu. Quando a rua se abrir em uma enorme praça, você vai ver à esquerda uma mansão neoclássica branca com telhadinho verde. Esta é uma das construções mais bonitas de Moscou, na minha humilde opinião. A casa foi construída na segunda metade do século XVIII e é descrita no clássico “O Mestre e a Margarida”, do escritor Mikhail Bulgakov. Diz a lenda que Pashkov recebeu uma “despromoção” militar e resolveu construir a casa com a parte de trás dando pra frente do Kremlin, como uma maneira de protestar ou provocar. Por conta disso, o que você vê da rua, vindo do Kremlin, é a traseira (ou o traseiro) da mansão.

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7) Almoço

Sim, mochileiro também come. As opções são muitas, mas eu recomendo:

– Taras Bulba (restaurante ucraniano): rua Mokhovaya, 8. É um restaurante bastante conhecido dos moscovitas. Há varios na cidade e este é frequentado por pessoas do governo e businessmen que trabalham na região. Ah! E turistas, claro. Fica quase em frente à Casa Pashkov, mas do outro lado da rua. Preço: com 1000 rublos (R$ 65) você vai comer entrada, um principal bacana, beber algo e ainda deixar gorjeta. http://tarasbulba.ru/main-menu.html

Restaurante Ucraniano

Taras Bulba

– Eat and Talk: rua Mokhovaya, 7. Fica do outro lado da rua, depois um pouco da biblioteca gigante que você vai ver à esquerda. O restaurante está dentro de uma galeria. Fique atento aos sinais na rua. Comida boa, com preço bem bacana. Não tem o apelo tradicional do Taras Bulba, mas pra quem não quiser arriscar e preferir pedir pizza, noodles, sushi ou algo menos incrementado, esta é uma boa pedida. Preço: 800 rublos para entrada, principal e bebida. http://eng.eattalk.ru/

– Cantina da biblioteca (em russo “stolovaya”): este é para o mochileiro mais radical (tipo eu!!). Isso sim é tradicional! Comida feita por russos para russos. E super mega ultra barato. Tem gosto de comida da avó e é frequentado por estudantes, aposentados e trabalhadores da biblioteca. Consiste em um bufê onde você vai escolhendo os pratos. Preço: 200 rublos (R$ 13!!!!) e você vai comer bem e tomar um suquinho (nada de álcool aqui!). Mais detalhes da cantina no próximo ponto, quando falo sobre a biblioteca.

8) Biblioteca Lênin

De fora o edifício talvez nem impressione muito, mas recomendo que você visite o interior. Na segunda entrada (à direita de quem vem da estátua de Dostoiévski, em frente à biblioteca), você vai fazer seu cartão de visitante. Só precisa dizer “turist” e ele vão te explicar (em russo) o que fazer. Finja que entendeu, preencha o formulário e pronto. É de graça. Volte para a entrada principal (a porta é super pesada; não pense que está fechada), passe por mil controles para deixar a mochila e casaco. Agora é só visitar a biblioteca. Após subir as escadas principais, siga no corredor central até o final e suba mais escadas. As salas de leitura têm uma vista maravilhosa pro Kremlin.

No subsolo da Biblioteca, há uma cantina (stolovaya) super ultra barata, com comida de verdade. Tudo muito bom. Em nenhum outro lugar no centro de Moscou você vai comer pagando tão pouco. Devo agradecer à amiga Priscila Nascimento pela descoberta. É um pouco difícil encontrar a cantina e sugiro que você pergunte a alguém. Só dizer “stolovaya”.

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9) Jardim de Alexandre

Saindo da biblioteca, siga pela rua Mokhovaya, na calçada da direita (atravesse pelas passagens subterrâneas). Você vai ver a entrada do Kremlin (a visita será outro dia) e andar na direção do Jardim de Alexandre, visitando também a chama eterna na Tumba do Soldado Desconhecido.

 

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10) Tverskaya

Quando terminar de visitar os jardins, busque o Hotel Nacional, na esquina das ruas Mokhovaya e Tversakaya. Você vai subir calmamente a rua Tverskaya, a principal da capital russa. Lojas, lojas, lojas, a prefeitura, lojas, lojas, alguns teatros, restaurantes, lojas e lojas. Minha sugestão é subir pela calçada da direita e cada vez que você vir um arco entre os edifícios, entre para conferir. Geralmente os edifícios mais bonitos estão justamente escondidos nos pátios atrás dos arcos. A prefeitura você vai ver no número 13 desta rua (prédio vermelho pastel) . Continue andando até o número 14 e surpreenda-se (!!!!!!) com a arquitetura do Gastronom Eliseevsky, um requintado edifício de 1901 que é hoje um supermercado (com preços um pouco acima da média, mas ainda assim razoáveis). Confiram este vídeo e babem:

A praça Pushkin pode ser o ponto final do passeio. Pros que ainda conseguem andar, sigam até o fim da rua, na estação de trem/metrô Kievskaya. Não fica muito longe.

  • Este é um passeio que pode tomar o dia inteiro. Não há restaurantes entre os pontos 3 e 6, mas depois é fácil parar e sentar para descansar.
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Quero fazer a Transiberiana – por onde começar?

Depois de mais de três anos morando na Rússia e já começando a entender as nuances e sutilezas do país, resolvi embarcar na épica Transiberiana, a viagem de trem que liga Moscou à cidade de Vladivostok, lá no Pacífico. Serão 9289km, sete fusos horários e 40 dias no maior trajeto de trem do planeta. Morar no país e conhecer o idioma facilitou o meu (pequeno) planejamento, mas tentarei dar o máximo de detalhes para que o viajante independente consiga se organizar. A primeira confusão a respeito da Transiberiana é entender o que ela é. Muita gente pensa que é somente um trem ou apenas uma rota, mas na verdade há várias Transiberianas e é possível adaptar o trajeto clássico aos interesses de cada um. Não há somente uma rota nem apenas uma maneira de fazer a viagem. Muitas pessoas, por exemplo, preferem seguir para a Mongólia ou a China depois do lago Baikal, mas eu decidi me concentrar na Rússia e fechar a viagem no extremo oriente do país. Veja abaixo o mapa da Transiberiana clássica (traçado vermelho):

Mapa Classico Transiberiana

Fazer a Transiberiana direto ou parando ao longo do percurso?

Cruzar a Rússia toda de trem sem parar deve ser o mesmo que entrar num Big Brother sobre trilhos, durante uma semana. Ao menos que você queira gastar muito dinheiro e pagar uma cabine exclusiva (e foge um pouco do espírito da viagem), acordar e dormir com pessoas desconhecidas durante tanto tempo não é pra qualquer um. O máximo que eu já fiz foram duas noites consecutivas dentro de um trem (do sul pro norte da Rússia). Foi sensacional por um lado porque fiz amizades com pessoas que provavelmente nunca teriam cruzado o meu caminho, além de ter entendido um pouco o jeito russo de ser. Por outro lado, foi cansativo e às vezes bem chato, seja pela mesma paisagem durante tantas horas seja pelos inconvenientes “vizinhos de trem”. Acho que cinco paradas durante a Transiberiana é um mínimo razoável. Assim tem como “quebrar” bem o longo trajeto e aproveitar também a experiência do trem. Como eu tenho interesses mais específicos por já morar aqui e por ser jornalista, resolvi fazer muitas, muitas paradas. Sai mais caro porque não existe um ticket Moscou-Vladivostok com o qual seja possível parar quantas vezes você queira, mas achei que valia a pena. Confiram meu trajeto, ligeiramente adaptado da versão clássica (resolvi incluir Kazan e Sakhalin):

Mapa Transiberiano  Não falo russo. Tem como fazer a Transiberiana?

Claro. Óbvio. Evidente. Já pensou se viajássemos somente para países cujo idioma nós dominamos? Não entendo muito bem o medo de viajar à Rússia sem saber russo. É verdade que os russos não sabem inglês? Sim, é verdade. Mas você é brasileiro!!!! Use a brasilidade ao seu favor. E sorria, mesmo que eles não retribuam. Fale “Brazilia” (“Brasil”, em russo), “Ronaldo”, “Izaura”, “fazenda”, “Carnaval” e  “Ai se eu te pego” e sua vida estará resolvida. Não gosto de estereótipos de nenhum tipo, mas pelo menos a ideia que os russos têm do Brasil é bem positiva. Na verdade, é até mesmo um tanto quanto exótica, beirando à piada (não se surpeenda se falarem do grande jogador brasileiro Maradona ou se acharem que temos macacos pelas nossas cidades). Viajar pela Rússia sem saber russo não é nem de longe simples, mas pode render histórias divertidas também. Eu vim aqui a primeira vez em 2008 e o meu conhecimento do idioma se resumia à palavra “vodka”. Dependendo da sua sorte com o “vizinho de trem”, um pedaço de papel e um mapa podem ser o pontapé para uma conversa. Experiência própria. No geral, nem mesmo em Moscou há sinalizações em inglês. São Peterburgo é um pouco mais bem preparada para receber turistas, mas no resto do país fala-se russo e somente russo. E isso vale também para aeroportos, estações de trem e até mesmo albergues da juventude. A notícia boa é que todos os russos sabem ler o nosso alfabeto (uff), mas como poucas coisas estão transliteradas nas placas das cidades, é fundamental que você leve um papelzinho com o alfabeto cirílico. Em alguns dias, você já saberá ler o russo, acredite. É bem bem fácil:

Alfabeto

Quando viajar?

Mais uma vez, acho que há diferentes Transiberianas. Como a Rússia tem as quatro estações, são pelo menos quatro paisagens diferentes. O inverno deve ser impressionante. Cruzar a Sibéria com neve e temperaturas abaixo dos -30C pode ser uma super experiência. Como eu já moro na Rússia e não aguento mais tanta neve, decidi começar no fim da primavera/início do verão (junho) para fugir também do calor de julho e agosto. Lembre-de que a Rússia é um país frio e está preparado somente para o frio. Ar-condicionado é um artigo de luxo aqui.

Tenho pouco tempo.

Viajar com pressa é sempre ruim, mas tem como, claro. Lembre-se que somente o trem já “come” quase sete dias. Se você fizer cinco paradas, dá pra completar tudo em uns 20 dias, mas correndo. Onde parar? Chutando por alto, eu diria: Moscou –> Kazan –> Ekaterinburg –> Novosibirsk (Tomsk) –> Irkutsk –>  Chita –> Vladivostok. Mas insisto. É tudo correndo muito.

Quanto custa?

Esta pergunta também é clássica, mas a resposta tem dezenas de variantes. Acho que poderei responder com mais propriedade quando eu terminar a minha viagem mas por enquanto, deixo as contas para um mochileiro: – passagem até Moscou: varia, obviamente, da cidade de partida – albergue (dormitório): 500 rublos (R$ 35) por dia. – visitas turísticas: 500 rublos (R$ 35) por dia – comida: 700-800 rublos (R$ 47-53), sem cervejas. – passagens: tudo depende do número de paradas ao longo da Transiberiana. O trem direto de Moscou para Vladivostok custa 8 mil rublos (R$ 530), em junho de 2013. Com cinco paradas, subimos o valor para 15 mil rublos (R$ 1 mil). – lembrancinhas: eu já não compro nada nem pra família. Mas sei que muita gente compra tanto ímã que se colocar a mochila perto da geladeira, a mochila inteira fica pendurada. Minha sugestão é diminuir os souvernirs porque depois aquela tia nem vai comprar uma caneta no seu aniversário – extras: este costuma ser o grande drama de qualquer viajante. Tudo pode acontecer. Ter que pegar um taxi super caro de repente, perder um trem, sentar sem querer num restaurante caro ou simplesmente se empolgar e achar que faz parte do programa Mulheres Ricas. Some todo o orçamento e acrescente 15% para os imprevistos. Claro que tudo é muito aproximado. Os valores no interior da Rússia são mais baixos, mas compensam os valores estratosféricos de Moscou e do Baikal.

Quanto custam as passagens? Tem alguma época mais barata ou mais cara?

As passagens na Rússia variam de acordo com a temporada. O período mais caro (entre 15 e 20% acima da tarifa base) é entre os dias 8 de junho e 2 de setembro, além dos dias 29 e 30 de dezembro. Os meses mais baratos são fevereiro, março (excluídos os dias 7, 8, 9 e 10), abril, outubro e novembro (excluídos os dias 1, 2, 3 e 4). Na baixa temporada, os preços são entre 15 e 25% inferiores ao preço padrão. Em alta temporada, recomenda-se comprar com antecedência, especialmente trechos entre Kranoyarsk e Irkutsk (lago Baikal). As passagens desaparecem.

Como comprar a passagem? Em que classe viajar?

A leitura do meu post anterior explica tudo – https://omundano.com/2013/01/03/como-viajar-de-trem-pela-russia/ . Agora o site das Ferrovias Russas está em inglês, facilitando tudo.

O que levar?

Uma mochila com o mínimo dentro. Se você não viajar no inverno, o que exigiria uma backpack abarrotada de casacos, é fácil sair de casa com 10kg em uma mochila e uma mochila menor para câmera, guia e coisas do dia-a-dia. Como a minha viagem é em junho, estou levando oito camisetas (que irei lavando e revezando ao longo do trajeto), dois casaquinhos, uma toalha, um par de tênis, havaianas (que eu uso o tempo quase todo), cinco pares de meias, um short e uma calça jeans. Não se esqueça dos artículos de higiene pessoal e de remédios para estômago e dor-de-cabeça. Band-aid, desinfetante e camisinha também podem ser úteis. E repelente, sem dúvida. Leve também algo para seu tempo ocioso (produtivo ou não). Pode ser um tablet/computador, livro, arquivo eletrônico que você precisa organizar, crochê, Xbox, papel para desenho… Tempo você terá e esse é um bom momento para colocar algumas coisas em ordem. E o mais importante: comidinha e bebidinha. Para comer, os russos sempre, sempre, sempre levam para o trem: – ovo cozido – pepino – tomate – miojo (“lapshá”, em russo) – chá Estes são os itens que não podem faltar na sua mochila. Como tem um recipiente com água quente no trem, você pode fazer seu miojinho gostoso com toda a higiene do mundo. O mesmo vale para o chá. Além de garfo, faca e colher, leve uma xícara de chá (melhor que seja algo resistente). Comprando chá no mercado, você poderá tomar chá dentro do trem durante toda a viagem e isso é quase um ritual russo. De qualquer maneira, chá é servido por alguns módicos rublos dentro do trem também.

Transiberiana - comida

Viajar sozinho ou em grupo?

São duas viagens diferentes – sozinho e em grupo –, com seus prós e contras. Claro que uma viagem com um (PEQUENO) grupo é sempre mais divertida, mas vale lembrar que demora muito mais pra que todos se arrumem, tomem banho, decidam. Se houver um líder claro, ótimo. Se não, problemas provavelmente acontecerão. Pr’este tipo de viagem, eu acho mais interessante viajar sozinho. A gente nunca sabe quem vai sentar do nosso lado e acho este exatamente um dos pontos altos da Transiberiana.

Vizinho

Aí a pessoa que está do seu lado no trem na Rússia te aponta uma faca e diz: “Tenho antecedentes criminais”. E dorme. Mas antes ele toma um gole de vodka e te força a beber também.

É seguro para mulheres?

Muito seguro. As precauções são as mesmas – ser firme quando a cantada ou a gracinha não te interessarem, evitar grupos de homens que estejam bebendo álcool, não andar por lugares desconhecidos sozinha à noite. O de sempre. A Rússia é bastante segura para os padrões brasileiros e os bêbados do trem e das ruas são os que mais incomodam (mas não costumam passar de palavras incompreensíveis lançadas ao vento).

E para a comunidade LGBT?

Não acho correto/justo que alguém tenha que esconder o que é ou precise até mesmo mentir pata evitar problemas, mas por questões de segurança, sugiro que a comunidade lgbt NÃO exponha a sua orientação sexual na Rússia. Os papeis de gênero são ainda muito fortes no país e a homofobia (do jeito que entendemos no Ocidente) é quase uma regra. Todo cuidado é pouco. Atenção até mesmo para os aplicativos de encontro (Grindr, por exemplo). Houve pelo menos cinco casos de crimes possivelmente relacionados ao Grindr nos últimos seis meses em Moscou. O encontro com uma pessoa aparentemente interessante pode te levar a um criminoso.

E como volto da minha Transiberiana?

Acho que a maneira mais simples é voltar de avião para Moscou. As passagens começam em 7.500 rublos (500 reais), mas podem facilmente chegar aos 20.000 rublos (1.340 reais), na alta temporada. A viagem de avião entre Vladivostok a Moscou dura quase nove horas.

Álcool no trem

Os russos bebem muito. E sabem beber. Você já viu garrafa de cerveja de 5 litros? Tem na Rússia. E cerveja com 12% de álcool? Temos também. Não tenha vergonha de recusar uma dose de vodka ou uma cerveja estranha e forte. Eles vão insistir e depois fica mais difícil escapar da segunda, da terceira, da quarta… Beber uma cerveja com as novas amizades pode ser bem legal, mas ninguém quer ficar bêbado na Transiberiana, né? Pode ser perigoso de verdade.

Internet e eletricidade

Vale a pena comprar em Moscou um simcard russo. Custa bem pouco e, dependendo da tarifa, é possível ter 3G por 25-30 reais pelo mês inteiro. E funciona em todo o país, sem custo adicional. Há tomadas 220V nos vagões. Se você tiver sorte e pegar um trem melhor, há uma para cada grupo de seis pessoas. Se você não tiver tanta sorte, busque perto do banheiro e próximo à cabine da “trem-moça”, no início e no fim de cada vagão.

Boa viagem!

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Em Moscou: estação de trem Kazansky

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Como viajar de trem pela Rússia

Qualquer mochileiro brasuca de primeira viagem sonha em cruzar a Europa Ocidental de trem, indo de Lisboa a Berlim com aqueles passes que dão direito a utilizar a malha ferroviária europeia. Qual não é a nossa surpresa (e decepção) quando nos deparamos com inúmeros “poréns” – os passes são caros, exigem reserva em determinados trajetos e estão longe de ser a maneira mais confortável para viajar pelo Velho Continente.

Cá entre nós: já faz tempo que é muito mais fácil e barato viajar pela Europa de avião com as companhias de low cost, que mudaram as noções de tempo, distância e valores do continente. Pr’aqueles que ainda veem charme no trem (eu, por exemplo), a Rússia e alguns dos países da ex-URSS rendem deliciosas viagens e histórias. O trem continua sendo o meio de transporte mais popular e econômico

Há alguns meses, fiz o trajeto Moscou-Kiev e por isso resolvi escrever este post. Para a maioria das pessoas, o trem em si já vale a viagem, mas é preciso um pouco de organização.

Primeira dúvida: como e onde comprar as passagens? Sabendo um pouco de russo (o alfabeto, pelo menos) ou tendo um pouco de paciência com o google translate, é possível comprar tudo pela internet, no site oficial das Ferrovias Russas – http://www.rzd.ru. Sei que todos vão ficar buscando a versão em inglês do site. E há!!!! O problema é que na página em inglês não aparece a opção de comprar. Bem, quem quiser saber um pouco sobre os trens russos, pode ser interessante… (risos).

*Atualização: agora o site RZD (www.rzd.ru) tem uma ótima versão em inglês. A vida ficou muito mais simples, viajantes!! Não gastem seus reais com agências on-line. 🙂

“Blogueiro, eu não quero perder meu tempo com o site em russo. O que faço?”. Bem, render-se às agências on-line que podem facilmente cobrar o dobro do valor do bilhete. Se dinheiro não for um problema, sugiro olhar o site http://www.waytorussia.net/Services/Traintickets.html

Os tickets começam a ser vendidos 45 dias antes da data de partida e para os que viajam na alta temporada (julho e agosto ou nas datas festivas), recomenda-se comprar com antecedência para escolher os melhores locais (longe do banheiro, por exemplo). Apesar de muitos trens, trajetos populares como Moscou-São Petersburgo podem esgotar rapidamente.

E quem não quer nem tentar se aventurar nas letrinhas do alfabeto cirílico e nem quer pagar uma fortuna às agências em inglês, o que fazer? Opção 1: sentar, chorar e viajar para a Argentina.  Opção 2: “comprar direto na estação lá na Rússia”, diria qualquer pessoa esperta. Sim, é possível, mas não espere encontrar NINGUÉM que saiba inglês para te ajudar. As pessoas que trabalham no caixa são geralmente velhinhas não muito fofas (as “babushki”) e a chance delas verem o seu desespero e não fazerem o mínimo esforço para ajudar é alto (eu diria que no nível de 99% de probabilidade). Caso você enrole no russo ou tenha um amigo na Rússia, será bem-vindo nas filas das estações do país (mas lembre-se que se for alta-temporada, não deixe de comprar com antecedência). Um outro aviso: seja paciente. Furar fila é quase um esporte olímpico na Rússia. Todo mundo tem “um trem saindo daqui a meia-hora” e os russos pacificamente (ou passivamente) provavelmente deixarão a pessoa passar. Não tente criar confusão e dar lição de moral. Se as pessoas fizerem cara feia pro fura-fila, faça também, reclame com a cabeça e nada mais. Reclamar (sozinho) é um esporte tão popular quanto furar fila, mas não passa disso. E a última dica: leve o seu passaporte, mesmo se for comprar trajetos domésticos.

A seguir, fotos de uma das estações de trem da capital da Rússia – Estação Kievskaya.

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Passado todo este blá, blá, blá (que você em breve me agradecerá), chegou a hora de escolher que passagens comprar, que classe no trem e assentos.

Na Rússia, há três tipos de classe, geralmente:

– primeira classe: compartimentos fechados com apenas duas camas, chamados SV (spalny vagon), мягкий (soft, macio) ou люкс (lux, luxo)

– segunda classe: compartimentos fechados com quatro camas, chamados купе (kupê)

– terceira classe: a classe é chamada плацкарт (плац, platzkart) e consiste em verdadeiros dormitórios sobre trilhos, com 54 camas por vagão (não há espaços fechados). Confira as fotos:

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Para vocês terem uma ideia dos valores, peguemos o exemplo do trajeto Moscou – São Petersburgo. Em baixa temporada, os preços variam entre 70 e 100 reais na terceira classe, 135 e 190 reais na segunda e 260 e 400 reais na primeira classe. Os preços no site aparecem somente em rublos. Nas estações não é aceito pagamento em dólar, mas é possível pagar com cartão.

A seguir, o exemplo de uma página do site oficial das Ferrovias Russas, simulando uma compra de passagem entre Moscou e São Petersburgo. Cada opção se refere a uma tipo de trem, com seu respectivo horário de saída (Отправление), duração da jornada (В пути) e chegadas (Прибытие). Mais à direita, o tipo de classe e o preço (место/стоимость). Acho que com este guia passo-a-passo, nem é tão difícil assim, não?

Moscow - Peter

Passagens compradas. Como entender o ticket? Bem, não sei se a intenção era complicar a vida de quem não sabe russo, mas a questão é que as passagens na Rússia trazem tanta informação que é impossível não se perder. Com a foto abaixo, aprenderemos a “ler o ticket”:

Изображение 602

– na primeira linha, temos o sublinhado que indica a data da viagem (26.07) e os números ao lado são o horário de partida (16.46). Na mesma linha, à direita, o número que eu envolvi mostra o número do vagão (10);

– na segunda linha, o nome da estação de onde sai o trem (neste caso “москва кив”) e o destino (“киев пасс”).

– na terceira linha, entre as flechas, aparece o número do assento (46 – “места” significa lugar)

– na antepenúltima linha, meu sobrenome em russo – ДА КОСТА (DA COSTA)

– na penúltima linha, o preço total da passagem, com todas as taxas.

Eu sempre viajo de Platzkart e acho super interessante. É relativamente confortável e muito provavelmente vão te oferecer vodka ou ovo cozido no caminho. Tem combinação melhor do que essa? Para viagens mais longas e/ou com pessoas idosas, o “kupe” seria mais recomendável. Aqui vale o bom senso, claro. Eu, por exemplo, não tenho problema com estas coisas burguesas de privacidade então posso viajar dois dias de platzkart sem problema. Mas não sei se a sua avó ou namorada curtiriam a aventura. Outro detalhe MUITO importante: os vagões da classe platzkart não têm ar-condicionado. E o verão na Rússia, diferentemente do que muita gente diz, não é como o inverno brasileiro. Faz calor e os trens não tem janelões, somente janelinhas minúsculas que evidentemente não dão conta do recado. Se o objetivo for economizar, vá de platzkart mesmo e tome isso como uma experiência pré-inferno. Pode ser divertido.

Dúvidas práticas:

– Roupa de cama: se for um trem noturno, diga pra caixa que você quer o ticket “c бельём” (s belyom – com roupa de cama). Mas a caixa provavelmente nem vai te perguntar. E como acho que você não vai se arriscar a tentar comprar na estação, fique atento ao site RZD pra marcar que você quer com roupa de cama. De qualquer maneira, caso esqueça, é possível comprar direto no trem. Custa 111 rublos (cuidado porque já tentaram me cobrar mais!).

– Idioma: aí vai da sorte de cada um. Mesmo nas grandes cidades, encontrar pessoas que falem inglês não é tão simples. Mas a língua de sinais e um sorriso largo brasileiro podem ajudar. Aprenda uma frase: “Я бразилец. Я не говорю по-русски”(Ya brazilets. Ya ne govoryu po-russki – Eu sou brasileiro. Eu não falo russo). Essas simples palavras podem mudar a sua viagem. Mesmo que o russo ou a russa não fale inglês, você vai escutar as referências óbvias – futebol, Carnaval, Pelé (às vezes sai um Maradona também), Isaura (a novela foi o primeiro programa estrangeiro exibido pela tv soviética) e o recente sucesso “Ai se eu te pego”. O conhecimento do russo médio a respeito do Brasil não vai muito além disso e se você tiver centavos de real e/ou cartões postais para dar de lembrancinha, pode ter certeza que uma dose de vodka você ganhará no caminho.

– Comida e bebida: alguns trens possuem vagão-restaurante, mas os russos viajando na terceira classe costumam levar comida de casa pra viagem. Você vai entender o sentido de “farofeiros” assim que pegar um trem no país. É peixe, pão, doce, batata, tudo. E para confirmar o estereótipo, álcool. Cuidado com o nível de empolgação porque os russos geralmente não ficam bêbados com dois golinhos de vodka. Nós, sim. Beba com moderação. Ah! É possível tomar chá na viagem (pagando alguns rublos como serviço de bordo ou de graça, se você levar o seu chá e sua xícara, já que água quente é gratuita).

– Mulheres viajando sozinhas: não há problemas. Basta manter o bom senso.

– Crianças pagam?: De 0 a 4 anos, viajam de graça. Entre 5 e 9 anos, pagam metade. A partir dos 10, pagam o valor inteiro

Espero que este post possa ajudar ao mochileiros na Rússia. E que ninguém desanime. Como eu disse antes, não importe a origem e o destino. Viajar de trem na Rússia é uma super experiência.

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Gênova, Ligúria – Itália

A “Bella Italia” não decepciona. Qualquer cidadezinha encanta, qualquer trajeto é cênico, qualquer igrejinha surpreende quando entramos. Viajar pela Itália é sempre um exercício para o pescoço – para alcançar com a vista todos os detalhes desta ou daquela estátua – e para as cordais vocais – porque falar mais alto que os italianos não é fácil. Hora também de esquecer a dieta. Come-se e bebe-se bem. Muito bem.

Neste verão europeu, apesar das inconveniências da alta temporada do continente mais visitado do mundo, resolvi me aventurar pela região da Ligúria, na costa noroeste da Itália.

Com um pouco de organização, aproveitar esta região do Mediterrâneo pode ser mais barato do que muita gente imagina.

A Ligúria é a Riviera Italiana, continuação da aclamada Riviera Francesa (a Côte d’Azur). Menos glamurosa que a vizinha, a parte italiana da Riviera ganha em charme, autenticidade e carisma (tente sorrir na chique St. Tropez e você verá a reação dos franceses). A Itália respira lirismo e a impressão que a gente tem é que Roberto Begnini vai aparecer em alguma janela, de alguma viela, gritando “Buongiorno, principessa!”. Já que isso não acontece, perambular tomando um sorvete com o Mediterrâneo ao fundo já vale a viagem!

Como eu cheguei à Itália por Milão, decidi começar a viagem com Gênova, a capital da Ligúria (entre Milão e Gênova há trens quase a cada hora e o trajeto dura menos de duas horas. As passagens podem ser compradas por €9, 23 reais, no site http://www.trenitalia.it. Recomenda-se comprar com antecedência na alta temporada).

Muita gente fala mal de Gênova, mas eu amei. Foi uma grata surpresa no comecinho da aventura pela costa italiana. O centro histórico é considerado o maior da Europa e está muito bem conservado.

Há muitas opções de hotel e apesar de não ter reservado com antecedência, consegui quarto duplo por 60 euros (150 reais), com ar-condicionado. Como encontramos? Saindo da estação e caminhando 20m. Há muitíssima opção de acomodação e acho quase melhor checar no local, já que os preços e a qualidade do serviço variam muito também. Como a ideia era passar somente um dia em Gênova e sair no dia seguinte cedinho, escolhi um hotel do lado da estação de trem Piazza Principe, que também conta com linha de metrô.

Imperdível para um dia em Gênova:
1) comer focaccia di Recco

2) andar pelo centro histórico, tombado pela UNESCO em 2006. São dezenas de palácios dos séculos XVI e XVII, um do lado do outro. Para ver a lista completa, acesse o site inolli.com

3) Porto Antigo: perto do centro histórico; vale a pena caminhar pelo porto da cidade e saudar o Mediterrâneo. Guardando as proporções, a região lembra um pouco o Rio de Janeiro, com um viaduto pouco estético cortando a paisagem. O Aquário fica nesta parte da cidade.

4) Catedral de São Lourenço, o principal edifício religioso da cidade, gótico do início do século XII

5) Piazza Ferrari, com sua magnífica fonte (e passear pelas ruas próximas)

6) comer bruschetta di pesto (na verdade, eu pedia tudo com pesto, típico desta região da Itália)

7) depois desta andança e das comidinhas, a sugestão é pegar o funicular (plano inclinado) Zecca-Righi, inaugurado em 1895, que leva a um parque com vista panorâmica da cidade. Ótimo pro fim do dia. A passagem é comprada no próprio local, custa €1,50 (menos de R$4) e pode ser usada em qualquer transporte da cidade por 100 minutos (ok, taxis não estão incluídos – risos). O trajeto dura apenas 15 minutos e vale lembrar que a passagem só está válida depois de ter sido “marcada” nas maquininhas que ficam na entrada dos transportes. Ter o bilhete e não “marcá-lo”, validando-o, significa multa (se você tiver o azar de que um controlador te pare na Itália, algo muito raro).

Fotos de Michel Costa e Dmitry Kiselev

Se sobrar um tempinho durante o dia, vale tambem conferir a casa onde supostamente nasceu Cristóvão Colombo, aquele que “descobriu” a América. Tudo indica que ele na verdade seja da Córsega, que hoje pertence à Franca, mas a “Casa della Famiglia Colombo” merece uma visita. E é de graça.

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Convento de Novodevichy – Moscou

Um dos meus lugares preferidos da capital russa, o Convento de Novodevichy (Новодевичий монастырь) é uma joia do Barroco Moscovita (também chamado de Barroco Naryshkin) e representa muito bem a mistura entre a arquitetura tradicional russa e alguns elementos do barroco da Europa Oriental e Central. Em 2004, foi proclamado Patrimônio Mundial pela UNESCO.


O convento foi construído numa das curvas do Rio Moscou e é um reduto de tranquilidade na maior cidade europeia.

Fundado em 1524 pelo Grão Príncipe Vasili III em comemoração à reconquista de Smolensk em 1514 (que estava sob domínio polonês-lituano), o convento foi reconstruído por Sofia, meia-irmã de Pedro O Grande, que o usou como uma segunda residência quando ela governou a Rússia como regente na década de 1680.

Quando Pedro tinha 17 anos, ele tirou Sofia do poder e a confinou dentro de Novodevichy. Diz a lenda que Pedro colocou alguns de seus partidários pendurados fora de sua janela para que Sofia não se esquecesse o que poderia acontecer com ela.

No muro exterior da “Torre Sofia”, há milhares de pedidos à tsariana. As pessoas dizem que os desejos escritos ali são cumpridos.  Na foto abaixo, um dos pedidos mais curiosos: “Quero perder a virgindade”. Será que funcionou?

Durante a guerra de 1812 (Napoleão, lembraram?), o mosteiro foi quase destruído. Em 1922, o mosteiro foi fechado e tornou-se um “museu da emancipação da mulher”. As freiras voltaram ao convento somente em 1994.

Bem, aproveitando que você veio até aqui, não deixe de visitar o cemitério que fica atrás do convento. Considerado o local de enterro de maior prestígio de Moscou, abriga as lápides de heróis literários, musicais e científicos da Rússia – e, mais recentemente, o primeiro presidente da Rússia moderna, Boris Yeltsin. Pegue um mapa na entrada para localizar as sepulturas de Tchekhov, Gogol, Bulgakov, Shostakovich, Eisenstein e Nikita Khrushchev, o único líder soviético que não foi enterrado no muro do Kremlin.

Depois de visitar Novodevichy, sugiro um passeio de mais ou menos duas horas ao longo do rio, caso não esteja muito frio. A direção? Recomendo o sentido Vorobyovy Gory-centro (tendo o Mosteiro nas suas costas e olhando para os arranha-céus do centro financeiro, basta seguir o rio à esquerda).

Como chegar?
Apesar de aparecer em quase todos os guias como um dos pontos turísticos mais importantes de Moscou, muitas pessoas não vão até lá porque o convento não fica exatamente no centro da cidade. Turistas preguiçosos. Da Praça Vermelha, são somente 16 minutos de metrô. Imperdível.

–> Metrô Sportivnaya (linha vermelha – sul). Entrar no último vagão vindo do centro de Moscou, sair pelas escadas mais próximas e, já na rua, virar à direita, seguindo a rua Ulitsa 10 Letya Oktyabrya. Fácil de achar! (ah! assim que sair do metrô, tem uma padaria francesa na esquina com docinhos deliciosos!! Comprem pro piquenique!!)

Horários Qua-Dom 10:00-17:00

Preço:

– entrada gratuita se quiser apenas andar pelo convento, sem visitar nenhuma das igrejas;

– bilhete combinado, incluindo igrejas e exposições –> 150 rublos (9 reais);

– cemitério: 50 rublos (3 reais).

Atenção!! Extremamente desaconselhado andar pelo lago durante o inverno. Não tem como saber a grossura da camada de gelo e atravessar o lago congelado, por mais tentador e interessante que pareça, pode ser muito perigoso.

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Viajar descongestiona o cérebro

“Viajar descongestiona o cérebro”

Escutei esta frase em 2007 de um senhor em Rondônia, enquanto atravessávamos um rio de balsa. O Peru de um lado, o Brasil do outro e ele intrigado, querendo descobrir o que alguém “do sul” estava fazendo ali, sem uma razão específica. Eu estava somente viajando. Ele parou, pensou um pouco e me disse estas palavras que me seguem em cada viagem e que dão o título ao meu primeiro post.

Mapas sempre me fascinaram. Lembro que ainda criança, com meus 10 anos, eu ligava para as companhias aéreas com a minha voz sem sinal de puberdade e perguntava o valor da passagem Rio-Paris ou Rio-NY. Meus pais, sempre muito caseiros, não queriam ir nem mesmo a Minas Gerais, nosso Estado vizinho, e eu inocentemente sonhava com aqueles lugares que via nos atlas.

Lembro também que eu girava o globo, como todas as crianças que viraram viajantes ou não, para saber o próximo destino da minha imaginação. “Camboja” hahahahaha Riam-se meus primos, achando que meus únicos interesses fossem a Velha Europa e a terra do Tio Sam. Engano deles. “Camboja? Por que não?” Lá ia eu aos livros buscar informação sobre o desconhecido país (naquela época ninguém tinha internet em casa e não havia wikipedia).

Meu irmão mais novo também sofria com os meus devaneios. “Quais são as maiores pontes do mundo?”, eu perguntava. “Não sei”, respondia meu irmão. “Então estude a página 132 da enciclopédia e você vai saber. Mais tarde eu vou te perguntar e espero que tenha memorizado tudo”. E assim fazíamos. Até hoje meu irmão sabe o nome das pontes (ou pelo menos daquelas que eram as maiores pontes do mundo em 1995)…

O tempo foi passando e a vontade de conhecer as tais pontes, ver as cores reais e sentir o cheiro do que eu só conhecia pelos livros ia aumentando.

Em 2003, tive a sorte de conhecer um jornalista na plataforma da estação de trem da Uerj, onde eu estudava Comunicação Social. Marco Fonseca havia morado muito tempo nos EUA e quando eu falei do meu sonho de sair do Brasil, ele foi simples e direto: “E por que você não sai então?”. Aquela pergunta, tão óbvia mas dita no momento certo da maneira certa, foi o que me levou a comprar um guia (da Europa) e começar a viajar naquelas páginas de maneira mais séria, fazendo planos e vendo como eu poderia concretizar aquele sonho.

Um ano mais tarde, depois de muita economia do dinheir(inh)o que eu recebia no estágio, dei o primeiro salto – embarquei para Londres de mala e cuia, para uma temporada de seis meses. Isso foi há oito anos e a temporada durou mais do que eu imaginava.

Nestes oito anos, tive a oportunidade de morar em cinco cidades – Londres, Lisboa, Madri, Moscou e Cairo. E uma pergunta (quase sempre inquisidora) me perseguia: “Você é jornalista, conhece quase 1/3 dos países do mundo e não tem um blog de viagem?”.

Sim, agora eu tenho um blog – O Mundano. Espero que os futuros posts possam apresentar aos leitores um pouquinho do maravilhoso que é este mundo, sem juízos de valores e com a mente aberta para novas culturas (por mais estranhas que às vezes elas possam parecer).

O Mundano não tem intenção de competir com os guias de viagem consagrados, que contam com grandes e ótimas equipes.

O Mundano tem como único objetivo aguçar a curiosidade do leitor e mostrar que o mundo é muito mais do que a Torre Eiffel ou a Estátua da Liberdade.

O Mundano acredita que são as pessoas que fazem a beleza de um local e como há pessoas belas em todo o mundo, os quatro cantos do planeta merecem ser visitados.

Obviamente teremos dicas práticas (é por isso que você está lendo este blog, provavelmente), mas contarei muitas histórias e experiências também.

O Mundano tem este nome porque apesar de ser escrito por um carioca da gema, com seus princípios e limitações, pretende mostrar que quando colocamos a mochila nas contas, muitos dos nossos valores e tradições devem ser deixados em casa. Assim estaremos mais abertos a entender as novas culturas e hábitos.

O blog está sendo lançado hoje, 25 de julho, porque há exatos oito anos eu estava chegando em um país diferente pela primeira vez. E amanhã estou na estrada novamente, rumo a Kiev.

Olhando meus e-mails antigos, achei a primeira mensagem que enviei de Londres para os meus amigos no Brasil. É engraçado, quase infantil (eu tinha 19 anos), mas algumas coisas ainda são verdadeiras:
“Ah! No avião descobri que a gente pode enrolar em todas as línguas e que, no final das contas, se ninguém entender, você apenas sorri.”

Quanta verdade nesta primeira impressão!

Bem, depois de 60 países e territórios visitados, além das bandeiras, fotos, vistos e carimbos, eu me orgulho de estar colecionando pessoas e experiências. Parece brega, mas acreditem – o melhor do mundo são as pessoas.

Boa leitura e boa viagem!

Onde tudo começou - Londres 2004

Onde tudo começou – Londres 2004

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