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Kirov – sentimento provinciano e entrevista para um jornal local

Como eu já havia comentado nos primeiros posts, há várias maneiras de se fazer a Transiberiana. Fugir das cidades óbvias é uma delas e pode ser bem interessante (ou não).

Da esplêndida Kazan, resolvi ir para Kirov, uma cidade onde poucos viajantes param. Tenho uma grande amiga daqui e queria conhecer sua cidade-natal.

A primeira surpresa foi sem dúvida a (pouca) infraestrutura da estação. Depois de Kazan, cuja estação tem ares de aeroporto, Kirov me recebeu com simplicidade de cidade do interior. Assim que saí do trem, os alto-falantes começaram a tocar uma música no estilo Cauby Peixoto (mas em russo). Parecia que eu estava de repente em outro país. Kirov tem 470 mil habitantes, mas um ar provincial, um ambiente que pouco lembra qualquer uma das cidades até então visitadas.

Não é muito difícil se orientar neste tipo de cidade. Mesmo sem mapa, saí da estação e segui o fluxo das pessoas. A maioria ia para a estação de ônibus, para seguir viagem para alguma cidade ainda menor da região. Ali na estação perguntei onde ficava a Ulitsa Lenina (rua Lênin), onde presumi (acertadamente) que seria o centro. Cruzei um parque onde havia alguns brinquedos – roda-gigante, navio pirata, carrinho bate-bate – e como já estamos em férias escolares, apesar de ser quarta-feira de manhã, havia um número considerável de pessoas. Destaque para as bandeirinhas que estavam sendo vendidas no parque – bandeiras da Rússia com o rosto de Putin e Medvedev (em meio a alguns Bob Esponjas). Veja a foto na primeira galeria.

A minha mochila com uma bandeira do Brasil não passou despercebida. Um rapaz veio falar comigo pra me dizer que ele sabia um pouco de espanhol. A confusão entre português e espanhol entre os estrangeiros já é conhecida nossa. Corrigi o engano educadamente, mas ele insistiu no idioma de Cervantes e arriscou algumas palavras em espanhol mesmo. Não sei se ele está na segunda aula do curso ou se inventou a história pra conversar comigo, mas logo passamos pro russo e ele me contou que trabalha na televisão local em um programa que ensina as pessoas a falar frases importantes para situações específicas em alguns idiomas. O convite veio logo em seguida: “Você não quer ir lá na tv? Poderíamos fazer um programa com você, em português”. Como eu tinha apenas algumas horas em Kirov, tive que recusar.

Atravessei o parque e já achei uma das ruas principais – Prospekt Oktyabrskiy. Subindo mais um pouco, vemos a estátua do líder bolchevique Kirov, bem no começo de um agradável bulevar. Como o bulevar é paralelo à Lênin, resolvi andar até o final, quando chega a rua Profsoyuznaya, para depois girar à direita e pegar a Lênin do comecinho.

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A rua principal é muito menos impressionante do que as equivalentes das cidades russas que eu conheço, mas por isso mesmo me pareceu interessante. Prédios sem restauração, poucos cafés de grandes redes, edifícios residenciais stalinistas… Desci até a altura da rua Rosa Luxemburgo. Dali, peguei à esquerda da Rosa Luxemburgo e fui até o rio Vytka. Uma catedral ortodoxa completa a paisagem.

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Voltando à rua principal, desci até a rua Engels, na esquina com a Karl Marx (adoro estes nomes tão significativos) e dei uma andada pela gigantesca praça Teatralnaya, com a estátua de Lênin no centro e alguns teatros ao redor. O espaço é amplo é os jovens aproveitavam para andar de patins, skate ou bicicleta. Alguns deles aproveitavam o bom tempo para desenhar.

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Já voltando para a estação de trem, depois de quatro horas andando calmamente pela cidade, uma senhora me parou e disparou: “Você não é daqui, né?”. Confirmei a suspeita dela e falei que era brasileiro. “Ah, eu sabia que você não era nosso”, referindo-se à minha origem. Ela estava impressionada com o fato de um brasileiro ter parado ali, na pacata Kirov. Falei que eu tinha uma amiga dali e ela, sacando a câmera, foi me dizendo que era jornalista e que queria fazer uma matéria comigo. Usei a falta de tempo mais uma vez como desculpa, mas ela – a simpática Olga – se propôs a me entrevistar no caminho até a estação. Não tive como recusar. Além das perguntas óbvias – há quanto tempo mora na Rússia, o que faz aqui, do que gosta, do que não gosta, casado, tem filhos -, logo vieram questões mais estranhas ou indelicadas. “Você sabe nadar?”, “Quanto você ganha por mês como jornalista?”, “Pra que time você torce?”. Com a combinação das perguntas, já fiquei imaginando o título da matéria: “Jornalista brasileiro flamenguista nada em XX mil rublos mensais”. Olga me contou que também trabalha como freelancer e que um dos seus frilas (tirar fotos todo fim-de-semana em uma casa de concertos) paga 2 mil rublos (140 reais) por mês. A experiente jornalista tirou uma foto minha e disse que o artigo sairia no dia seguinte. Assim que eu voltar de viagem, tentarei entrar em contato com ela pra ver se consigo pelo menos uma foto do jornal local com o “meu” artigo.

Assim foi a minha rápida visita a Kirov. Não acredito que muita gente passe pela cidade, mas se uma sorridente senhora te parar na rua, já sabe que é a jornalista Olga e que no dia seguinte você estará na gazeta da cidade.

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