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Como viajar de trem pela Rússia

Qualquer mochileiro brasuca de primeira viagem sonha em cruzar a Europa Ocidental de trem, indo de Lisboa a Berlim com aqueles passes que dão direito a utilizar a malha ferroviária europeia. Qual não é a nossa surpresa (e decepção) quando nos deparamos com inúmeros “poréns” – os passes são caros, exigem reserva em determinados trajetos e estão longe de ser a maneira mais confortável para viajar pelo Velho Continente.

Cá entre nós: já faz tempo que é muito mais fácil e barato viajar pela Europa de avião com as companhias de low cost, que mudaram as noções de tempo, distância e valores do continente. Pr’aqueles que ainda veem charme no trem (eu, por exemplo), a Rússia e alguns dos países da ex-URSS rendem deliciosas viagens e histórias. O trem continua sendo o meio de transporte mais popular e econômico

Há alguns meses, fiz o trajeto Moscou-Kiev e por isso resolvi escrever este post. Para a maioria das pessoas, o trem em si já vale a viagem, mas é preciso um pouco de organização.

Primeira dúvida: como e onde comprar as passagens? Sabendo um pouco de russo (o alfabeto, pelo menos) ou tendo um pouco de paciência com o google translate, é possível comprar tudo pela internet, no site oficial das Ferrovias Russas – http://www.rzd.ru. Sei que todos vão ficar buscando a versão em inglês do site. E há!!!! O problema é que na página em inglês não aparece a opção de comprar. Bem, quem quiser saber um pouco sobre os trens russos, pode ser interessante… (risos).

*Atualização: agora o site RZD (www.rzd.ru) tem uma ótima versão em inglês. A vida ficou muito mais simples, viajantes!! Não gastem seus reais com agências on-line. 🙂

“Blogueiro, eu não quero perder meu tempo com o site em russo. O que faço?”. Bem, render-se às agências on-line que podem facilmente cobrar o dobro do valor do bilhete. Se dinheiro não for um problema, sugiro olhar o site http://www.waytorussia.net/Services/Traintickets.html

Os tickets começam a ser vendidos 45 dias antes da data de partida e para os que viajam na alta temporada (julho e agosto ou nas datas festivas), recomenda-se comprar com antecedência para escolher os melhores locais (longe do banheiro, por exemplo). Apesar de muitos trens, trajetos populares como Moscou-São Petersburgo podem esgotar rapidamente.

E quem não quer nem tentar se aventurar nas letrinhas do alfabeto cirílico e nem quer pagar uma fortuna às agências em inglês, o que fazer? Opção 1: sentar, chorar e viajar para a Argentina.  Opção 2: “comprar direto na estação lá na Rússia”, diria qualquer pessoa esperta. Sim, é possível, mas não espere encontrar NINGUÉM que saiba inglês para te ajudar. As pessoas que trabalham no caixa são geralmente velhinhas não muito fofas (as “babushki”) e a chance delas verem o seu desespero e não fazerem o mínimo esforço para ajudar é alto (eu diria que no nível de 99% de probabilidade). Caso você enrole no russo ou tenha um amigo na Rússia, será bem-vindo nas filas das estações do país (mas lembre-se que se for alta-temporada, não deixe de comprar com antecedência). Um outro aviso: seja paciente. Furar fila é quase um esporte olímpico na Rússia. Todo mundo tem “um trem saindo daqui a meia-hora” e os russos pacificamente (ou passivamente) provavelmente deixarão a pessoa passar. Não tente criar confusão e dar lição de moral. Se as pessoas fizerem cara feia pro fura-fila, faça também, reclame com a cabeça e nada mais. Reclamar (sozinho) é um esporte tão popular quanto furar fila, mas não passa disso. E a última dica: leve o seu passaporte, mesmo se for comprar trajetos domésticos.

A seguir, fotos de uma das estações de trem da capital da Rússia – Estação Kievskaya.

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Passado todo este blá, blá, blá (que você em breve me agradecerá), chegou a hora de escolher que passagens comprar, que classe no trem e assentos.

Na Rússia, há três tipos de classe, geralmente:

– primeira classe: compartimentos fechados com apenas duas camas, chamados SV (spalny vagon), мягкий (soft, macio) ou люкс (lux, luxo)

– segunda classe: compartimentos fechados com quatro camas, chamados купе (kupê)

– terceira classe: a classe é chamada плацкарт (плац, platzkart) e consiste em verdadeiros dormitórios sobre trilhos, com 54 camas por vagão (não há espaços fechados). Confira as fotos:

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Para vocês terem uma ideia dos valores, peguemos o exemplo do trajeto Moscou – São Petersburgo. Em baixa temporada, os preços variam entre 70 e 100 reais na terceira classe, 135 e 190 reais na segunda e 260 e 400 reais na primeira classe. Os preços no site aparecem somente em rublos. Nas estações não é aceito pagamento em dólar, mas é possível pagar com cartão.

A seguir, o exemplo de uma página do site oficial das Ferrovias Russas, simulando uma compra de passagem entre Moscou e São Petersburgo. Cada opção se refere a uma tipo de trem, com seu respectivo horário de saída (Отправление), duração da jornada (В пути) e chegadas (Прибытие). Mais à direita, o tipo de classe e o preço (место/стоимость). Acho que com este guia passo-a-passo, nem é tão difícil assim, não?

Moscow - Peter

Passagens compradas. Como entender o ticket? Bem, não sei se a intenção era complicar a vida de quem não sabe russo, mas a questão é que as passagens na Rússia trazem tanta informação que é impossível não se perder. Com a foto abaixo, aprenderemos a “ler o ticket”:

Изображение 602

– na primeira linha, temos o sublinhado que indica a data da viagem (26.07) e os números ao lado são o horário de partida (16.46). Na mesma linha, à direita, o número que eu envolvi mostra o número do vagão (10);

– na segunda linha, o nome da estação de onde sai o trem (neste caso “москва кив”) e o destino (“киев пасс”).

– na terceira linha, entre as flechas, aparece o número do assento (46 – “места” significa lugar)

– na antepenúltima linha, meu sobrenome em russo – ДА КОСТА (DA COSTA)

– na penúltima linha, o preço total da passagem, com todas as taxas.

Eu sempre viajo de Platzkart e acho super interessante. É relativamente confortável e muito provavelmente vão te oferecer vodka ou ovo cozido no caminho. Tem combinação melhor do que essa? Para viagens mais longas e/ou com pessoas idosas, o “kupe” seria mais recomendável. Aqui vale o bom senso, claro. Eu, por exemplo, não tenho problema com estas coisas burguesas de privacidade então posso viajar dois dias de platzkart sem problema. Mas não sei se a sua avó ou namorada curtiriam a aventura. Outro detalhe MUITO importante: os vagões da classe platzkart não têm ar-condicionado. E o verão na Rússia, diferentemente do que muita gente diz, não é como o inverno brasileiro. Faz calor e os trens não tem janelões, somente janelinhas minúsculas que evidentemente não dão conta do recado. Se o objetivo for economizar, vá de platzkart mesmo e tome isso como uma experiência pré-inferno. Pode ser divertido.

Dúvidas práticas:

– Roupa de cama: se for um trem noturno, diga pra caixa que você quer o ticket “c бельём” (s belyom – com roupa de cama). Mas a caixa provavelmente nem vai te perguntar. E como acho que você não vai se arriscar a tentar comprar na estação, fique atento ao site RZD pra marcar que você quer com roupa de cama. De qualquer maneira, caso esqueça, é possível comprar direto no trem. Custa 111 rublos (cuidado porque já tentaram me cobrar mais!).

– Idioma: aí vai da sorte de cada um. Mesmo nas grandes cidades, encontrar pessoas que falem inglês não é tão simples. Mas a língua de sinais e um sorriso largo brasileiro podem ajudar. Aprenda uma frase: “Я бразилец. Я не говорю по-русски”(Ya brazilets. Ya ne govoryu po-russki – Eu sou brasileiro. Eu não falo russo). Essas simples palavras podem mudar a sua viagem. Mesmo que o russo ou a russa não fale inglês, você vai escutar as referências óbvias – futebol, Carnaval, Pelé (às vezes sai um Maradona também), Isaura (a novela foi o primeiro programa estrangeiro exibido pela tv soviética) e o recente sucesso “Ai se eu te pego”. O conhecimento do russo médio a respeito do Brasil não vai muito além disso e se você tiver centavos de real e/ou cartões postais para dar de lembrancinha, pode ter certeza que uma dose de vodka você ganhará no caminho.

– Comida e bebida: alguns trens possuem vagão-restaurante, mas os russos viajando na terceira classe costumam levar comida de casa pra viagem. Você vai entender o sentido de “farofeiros” assim que pegar um trem no país. É peixe, pão, doce, batata, tudo. E para confirmar o estereótipo, álcool. Cuidado com o nível de empolgação porque os russos geralmente não ficam bêbados com dois golinhos de vodka. Nós, sim. Beba com moderação. Ah! É possível tomar chá na viagem (pagando alguns rublos como serviço de bordo ou de graça, se você levar o seu chá e sua xícara, já que água quente é gratuita).

– Mulheres viajando sozinhas: não há problemas. Basta manter o bom senso.

– Crianças pagam?: De 0 a 4 anos, viajam de graça. Entre 5 e 9 anos, pagam metade. A partir dos 10, pagam o valor inteiro

Espero que este post possa ajudar ao mochileiros na Rússia. E que ninguém desanime. Como eu disse antes, não importe a origem e o destino. Viajar de trem na Rússia é uma super experiência.

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